Descobertas por Sari Fontana

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Ovos coloridos para a Páscoa: o resgate da tradição

Chocolate não precisa ser o foco principal da celebração. Confira inspirações para colorir ovos de verdade e construir boas lembranças.

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Sarita Fontana
mar 12, 2026
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A Páscoa da minha infância gaúcha tinha gosto de cri-cri, um amendoim caramelizado que vinha dentro de cascas de ovos de galinha decorados. Eu gostava do recheio, mas a parte mais divertida era a de colorir as casquinhas com uma mistura de papel crepom e vinagre. O fechamento da “embalagem” ficava por conta das formas de doces.

Encontrei esta foto num blog, que ilustra a tradição do cri-cri nos ovos decorados

Sempre me interessei por pintar, o que não quer dizer que eu tenha talento pra isso. Vale para aquarela no papel, tinta na parede, telas, panos de prato, as minhas próprias unhas. Deve ser daí que surgiu meu interesse por maquiagem. O curioso é que só me dei conta disso recentemente, quando comecei a fazer cerâmica e percebi que ficava contando os dias para pintar as peças. Colorir é transformar, é preencher um espaço em branco com novas possibilidades.

Mas será que as crianças de hoje ainda gostam de colorir ovos nesta época do ano? Tenho a impressão de que Páscoa virou sinônimo de “festa do açúcar”.

Os Bunte Eier austríacos

Eu acabei de voltar da Áustria, que, nesta época do ano, está cheia de Bunte Eier por todos os lados: ovos de galinha coloridos, já cozidos, recepcionam os clientes na entrada do supermercado, enquanto os ovos “normais” ficam escondidos num canto da loja.

Acredita-se que o costume remonta ao século XIII, mas não se sabe ao certo a sua origem. Provavelmente, teve início com o jejum que era praticado na Quaresma, quando cristãos eram proibidos de comer ovos, mas as galinhas não paravam de botar. Para conservar o estoque acumulado, eles eram cozidos e então tingidos, para diferenciar dos crus.

Em alguns países da Europa Central, o costume de colorir ovos transcendeu a Páscoa. Eles são vendidos o ano todo, também como “Partyeier” (ovos de festa), seguindo a mesma lógica de identificação: a cor avisa que estão prontos para o consumo. E se você está se perguntando “quem comeria um ovo cozido frio?”, a resposta é: bastante gente. Surpreendentemente, eles não têm gosto forte de ovo, são neutros em sabor. Para esse resultado, basta não exagerar no tempo e temperatura de cozimento, pois é o excesso de calor que provoca a liberação de compostos sulforosos, com odor característico.

Nas padarias e cafés austríacos, é comum encontrá-los expostos no balcão ao lado de pães, servidos simplesmente com sal — um lanche rápido e nutritivo.

Quem precisa de barra de proteína quando se tem ovos cozidos?​

À esquerda, os que comprei no supermercado. À direita, os ovos à venda numa padaria, ao lado dos pães.

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Em kindergartens austríacos (creches), colorir ovos antes da Páscoa é uma atividade do calendário escolar, e o ritual inclui o Eierpecken no domingo de Páscoa: uma espécie de “duelo” em que cada pessoa bate sua ponta de ovo contra a do outro para ver qual quebra primeiro (espero que sejam cozidos!)

O poder dos rituais sazonais: nostalgia pode ser fonte de conforto

O que faz um ritual como esse resistir ao passar do tempo não é apenas a tradição em si, é o que ele faz com o cérebro humano. Estudos identificaram que ações estruturadas e repetidas funcionam como “amortecedores de ansiedade”. Em um mundo imprevisível, saber exatamente o que se faz em determinada época do ano cria uma sensação de controle e estabilidade.​

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