Descobertas por Sari Fontana

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O dia em que o apfelstrudel deixou de mandar em mim

Por anos tentei seguir o conselho mais repetido sobre alimentação — até descobrir que, para mim, o fim da compulsão viria fazendo o contrário

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Sarita Fontana
mar 06, 2026
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Tem uma pergunta que eu sempre recebo quando saio de férias, mas acho difícil de responder superficialmente:

Faz tempo que eu não planejo exceções, nem em viagem, nem na minha rotina. Mas isso não quer dizer que elas nunca acontecem e preciso lembrar que nem sempre foi assim. Aos 20 e poucos anos, eu era uma pessoa que não conseguia me controlar diante de certos alimentos, vivia ciclos de exagero, privação e culpa. Achava lindo quem seguia o conselho de manter uma dieta “equilibrada” e conseguia “comer de tudo um pouco, só que pouco” — uma teoria cativante que, na prática, não funcionava pra mim.

Só fui entender que se tratava de um transtorno alimentar depois dos 30, quando me vi curada1. Não sou especialista em compulsão nem pretendo ditar o que as pessoas que sofrem com isso devem ou não fazer, mas posso contar como eu me transformei em quem, finalmente, come um apfelstrudel com moderação. Aconteceu nas férias.

Na minha lembrança, esse doce de maçã era a oitava maravilha do mundo. Experimentei numa viagem de trabalho, muitos anos atrás, na tarde chuvosa de um domingo de inverno em Munique, onde não tinha nada pra fazer além de praticar meu esporte preferido da época, que era comer sem fome. Lembro que sentei sozinha num café aconchegante, com vista para a janela, e pedi o tal apfelstrudel. Era uma massa fina, amanteigada e macia, recheada com cubos de maçãs cozidas em açúcar e temperadas com especiarias. Ele veio saindo fumaça. O acompanhamento era uma generosa bola de sorvete de creme, que contrastava em textura e temperatura, completando a experiência inesquecível.

Corta para fevereiro de 2026, estou na Áustria, um país com forte influência da cultura alemã. Já faço uma dieta low carb há mais de uma década e não sou mais atormentada por pensamentos intrusivos sobre comida. Hoje eu como para viver — e também por prazer — mas não vivo para comer. Estar lá numa tarde de inverno chuvoso e gelado me fez lembrar do apfelstrudel: “por que não provar a versão austríaca?” Eu só não esperava que a experiência seria tão diferente da anterior.

O que veio x o que eu comi

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