Eu deixei a indústria de alimentos para falar sobre ela
Edição grátis! Vocês perguntam, eu respondo: sobre os bastidores da indústria, adoçantes, proteínas, low carb e ultraprocessados
Por quinze anos, trabalhei na indústria de alimentos. Depois, mudei de carreira e passei falar sobre ela. Minha vantagem é que não sou apenas uma consumidora crítica julgando de fora, eu conheço os bastidores, e hoje tenho a liberdade de quem não precisa defender a indústria. Trabalho para educar quem consome, de forma imparcial. Estas são perguntas que sempre recebo, aqui vão algumas respostas.
Você trabalhou por muito tempo na indústria de alimentos, deve conhecer muitos segredos. Existe algo surpreendente que você descobriu nos bastidores (se puder contar)?
Sari: Algo que eu não tinha ideia antes de trabalhar nesse meio é que o consumidor tem muito mais poder do que pensa. Construir uma marca e sustentar a cadeia de um produto custa muito caro, então, no fim das contas, quem comanda o destino dos itens que vemos no supermercado é o sucesso ou o fracasso das vendas. Cada vez que compramos um produto estamos votando para mantê-lo nas prateleiras; da mesma forma, cada vez que deixamos de comprar estamos votando para que o produto deixe de existir. Se, por um lado, a indústria influencia as preferências do consumidor, por outro lado, é o consumidor que determina os rumos da indústria —com uma força muito maior do que se imagina.
A melhor forma de protesto é deixar de comprar.
Você diz que a indústria de alimentos não quer matar as pessoas, mas será que a indústria não merece a má fama que conquistou?
Sari: Tenho uma leitura realista da indústria de alimentos, não é porque fui formada para trabalhar nela que vou defendê-la do jeito que está, pelo contrário, esse foi um dos motivos que me fez mudar de carreira. Posso dizer, com alguma autoridade, que a preocupação com segurança microbiológica e físico-química é levada a sério; o que não existe é uma agenda oculta para “matar” ou “viciar” o consumidor.
Nunca vi, nos bastidores, testes sendo feitos com o objetivo explícito de tornar os alimentos viciantes. O que existem são estudos de preferência sensorial, o que é um pouco diferente: a indústria quer fazer o produto mais gostoso possível porque produto gostoso vende mais. Essa é a lógica de qualquer negócio, não uma conspiração. O problema é que maximizar palatabilidade tem consequências no comportamento alimentar, e essas consequências também precisam ser gerenciadas tanto pelo consumidor, quanto, idealmente, por regulação.
O sistema de produção em larga escala que vemos hoje é recente, em termos históricos. Ele cresceu de forma rápida e desordenada e as diretrizes de saúde nem sempre acompanharam sua velocidade. Por exemplo, ingredientes que eram aprovados, como gorduras trans, levaram anos para serem estudados até serem considerados nocivos. Enquanto a indústria tiver liberdade para introduzir novos alimentos, sem uma avaliação prévia e rigorosa do impacto no organismo, estaremos sujeitos a esse tipo de desfecho.
Você começou na internet falando sobre low carb, ainda segue essa dieta?
Sari: Adotei a estratégia low carb há 13 anos, inicialmente, para emagrecer, porque já havia tentado todas as dietas e não conseguia manter o peso perdido a longo prazo. Com a low carb foi diferente, porque senti uma redução drástica da fome e passei a emagrecer como consequência disso, mantendo com menos esforço. Foi nessa mudança que desenvolvi um novo olhar para os alimentos industrializados.
Depois de perder 20Kg e melhorar muito a minha composição corporal, hoje não preciso de tanta restrição, mas aprendi a gostar de me alimentar assim, é como controlo a compulsão, e a saúde segue cada vez melhor. Minha dieta é baseada em comida de verdade (bichos e plantas), e inclui poucos industrializados que escolho com bastante critério. O resultado é pouco carboidrato e alta densidade nutricional.
É possível ser saudável e emagrecer com outras estratégias — não tento convencer ninguém a fazer o mesmo, porque militar sobre dieta é uma chatice. Apenas compartilho o que funciona para mim com quem tem interesse em saber, pois, como diz Dr. Souto, em Uma Dieta Além da Moda1: “ninguém é realmente livre para escolher se não souber que a escolha existe”.
Então você nunca come açúcar?
Sari: Existe uma falsa ideia de que low carb é zero carboidrato, mas isso não é verdade, “low” significa “baixo”, e não zero. Então, eu consumo açúcar com certa frequência, em pequena quantidade, por exemplo, nos chocolates amargos (prefiro um bom chocolate de verdade 70% cacau do que um “ao leite” com adoçante). Mas hoje em dia como poucos doces, em geral, e, quando faço receitas, prefiro usar bons adoçantes, como a estévia 100%. Também como frutas, eventualmente, até as mais doces — adoro abacaxi e cereja, o que mudou foi que aprendi a controlar as quantidades (antigamente eu comia quilos de abacaxi, pensava que não precisava ter limites, só porque o doce era natural da fruta, e estava enganada).
Adoçante não é pior do que açúcar? No fim, a pessoa não engorda mais?
Sari: Isso é um mito sem respaldo científico, infelizmente corre muita desinformação sobre o assunto. Um ensaio clínico randomizado (ECR) com 181 diabéticos comparou, por seis meses, quem continuava consumindo refrigerantes zero com quem os substituía por água; ao contrário do que sugerem os estudos observacionais sujeitos à causalidade reversa, o grupo que manteve o refrigerante zero não piorou o controle glicêmico – e quem trocou por água teve aumento da hemoglobina glicada. O grupo do refrigerante perdeu 1Kg, sem mudar nada mais na dieta, reforçando que bebidas adoçadas artificialmente não causam ganho de peso nem piora metabólica e podem, na prática, ajudar a evitar o consumo de açúcar resultando em melhora desses parâmetros. Em outro ERC, com duração de um ano, pessoas que emagreceram com restrição calórica e depois foram orientadas a seguir uma dieta sem açúcar tiveram muito mais sucesso quando podiam consumir adoçantes – uma diferença de quase 4Kg, mantida por um ano.
Então, não importa o que diz o senso comum, importa o que a ciência mostra: especialmente para pessoas diabéticas ou para quem está em emagrecimento, os adoçantes são melhores do que o açúcar (sem esquecer que outras mudanças de hábitos também importam). Isso não é um incentivo ao consumo ilimitado de adoçantes, pois ninguém deveria comer doce exageradamente. As pessoas, em geral, são muito dependentes do sabor doce, é preciso reduzir o consumo como um todo (como disse no post de 2023, que reproduzo a seguir, e como, desde 2019, fazemos nos desafios 3 dias sem doces). Os adoçantes podem servir como uma ponte para essa redução.
Em breve publicarei mais sobre o tema nas Descobertas. Por ora, você pode ouvir os podcasts e consultar mais referências sobre adoçantes nos links da nota de rodapé.2
Você desmascara muitos produtos falsos proteicos. A febre das proteínas já foi longe demais?
Sari: Proteína está na moda, e como toda tendência, foi capturada pela indústria e transformada em produtos (nem sempre saudáveis). Dietas com bom aporte proteico promovem saúde, melhoram a composição corporal e favorecem o emagrecimento. Mas as proteínas devem vir, primordialmente, de fontes in natura, como carnes, peixes, frango, ovos, laticínios e vegetais como ervilha, soja, etc. E não custa lembrar que a mesma lógica vale para as fibras, que também são importantes, mas elas devem vir dos vegetais frescos, não de produtos alimentícios com fibras sintéticas.

O problema não é a proteína, o problema é buscar a proteína em fontes questionáveis, como barrinhas, shakes, etc, que, muitas vezes, têm mais calorias de carboidratos e gorduras do que proteínas. Não adianta comer besteira no almoço e tentar compensar com uma barrinha de sobremesa, ela não cancela o que você já comeu e ainda acrescenta várias calorias extra. Até existem bons industrializados proteicos, que mostro nas minhas colunas e newsletters, e espero aprofundar no livro que estou escrevendo, mas é preciso procurar com cuidado.
Ver a palavra PROTEÍNA em destaque no rótulo, definitivamente, não basta.
Tem uma frase sua que me marcou: “em algum momento você vai abrir um pacote, então que seja o pacote certo”. Dá pra ser saudável comendo ultraprocessados?
Sari: Existe um caminho do meio entre demonizar tudo que vem da indústria e viver de industrializados. Não precisa ser 8 ou 80, tudo ou nada. A maioria de nós mora em centros urbanos e tem pouco tempo para cozinhar, então temos que encarar a realidade: é uma utopia imaginar uma alimentação 100% perfeita, apenas com comida orgânica, fresca e zero industrializados. Claro que isso seria ótimo, no mundo ideal, mas não serve como um conselho prático para o mundo real. Em algum momento vamos usufruir da conveniência que a indústria proporciona — mas isso não significa comer Miojo no café da manhã. É possível escolher bons alimentos industrializados, desde que tenhamos o mínimo conhecimento para ler e interpretar os rótulos.
O termo “ultraprocessado” tornou-se mundialmente conhecido a partir da classificação NOVA que embasou o Guia Alimentar brasileiro, e é consenso que todas as pessoas se beneficiam de consumir mais comida natural. Mas, como toda generalização, a NOVA tem algumas falhas e está sujeita a interpretações extremas. É mais fácil recomendar que as pessoas tenham receio da indústria como um todo, porque isso simplifica as decisões e permite acertar em grande parte das vezes. No entanto, à medida que o consumidor tem mais acesso a informações, maior é a sua capacidade de avaliar o que consome, ampliando as possibilidades.
Hoje em dia tem gente falando sobre rótulos superficialmente, repetindo conselhos do tipo “se tiver mais de 5 ingredientes, não coma”. Não é tão simples assim. Eu escolhi um caminho difícil e, por vezes, solitário, que é o de introduzir nuances na intepretação, explicando o que está por trás das fórmulas dos alimentos e de seus rótulos: entre o preto e o branco, há muitos tons de cinza. Fico feliz em ver que existe uma parcela da população com plenas condições e interesse em aprender mais sobre esse assunto. É mais trabalhoso do que reproduzir dicas simples para guiar a tomada de decisão, mas consumidores educados compreendem a lógica e fazem o esforço valer a pena.
Nem tudo que a indústria produz é ultraprocessado de baixa qualidade. O objetivo não deve ser “eliminar” a indústria (porque ela não deixará de existir), nem demonizar tudo que ela produz. O objetivo deve ser melhorar as composições dos industrializados, aprendendo a conviver com eles no contexto de uma alimentação saudável, baseada em comida de verdade. Essa não é uma mudança fácil, e talvez nunca aconteça em larga escala, pois quanto melhor qualidade nutricional, mais altos são os custos. Enquanto não podemos mudar o mundo, quem tem o privilégio de escolher o que consome pode, ao menos, mudar suas decisões individuais, demandando produtos melhores.
A informação é o caminho para escolhas conscientes, por isso passei a atuar na educação dos consumidores e espero estar contribuindo nesse sentido. Minha realização é ver as pessoas aprendendo a ler os rótulos com autonomia, porque quem se alimenta melhor, vive melhor.
Um livro imperdível para quem quer entender a estratégia low carb com base em evidências científicas robustas. Lá você encontra referências, mitos desvendados e estudos didaticamente explicados.
Podcasts relacionados (clique nos títulos para abrir): adoçantes e declínio cognitivo; adoçante engorda ou emagrece? Adoçantes artificiais aumentam o risco cardiovascular? Mais um estudo sobre adoçantes; Sucralose (de novo); Refri zero e gordura no fígado; Xilitol e risco cardiovascular; Microbioma intestinal: hope or hype? O e-book Guia de Adoçantes, que lançamos em 2020, está indisponível no momento, passando por atualizações.










Eu te admiro muito, Sari. Temos um caminho parecido na industria de alimentos e eu também escolhi sair dela. Mas ainda acredito que ela é parte fundamental do nosso dia a dia, e cabe a nós, consumidores, procurar informações confiáveis para podermos fazer escolhas melhores. Obrigada por ser incansável e produzir conteúdo de qualidade.
Nesses meus 12 anos de dieta low carb, passei a seguir profisssionais de saúde para tentar ter cada vez mais conhecimento para ganhar saúde. Atualmente, fiz uma filtragem e deixei de seguir diversos perfis por não entregarem nada mais do que venda de produtos.
Sendo assim, só sigo quem realmente me traz informações de alta qualidade e é por isso que estou sempre por aqui!